Geralmente a aceitação vem logo após a revolta, já está vem após a culpa. Eu não sei bem quando começou ou terminou a culpa, mas sei exatamente onde começou a revolta. Foi logo após eu ficar com raiva das pessoas que se dizem meus amigos, logo após ele choramingarem o suficiente para eu sentir nojo da forma como eles se colocavam como vitimas em tudo. Odiava quando se fingiam de fortes de uma forma patética que obrigava as pessoas a sentirem pena deles. Ninguém sente pena de mim.
Depois que a revolta passou a aceitação finalmente bateu a porta, quase abrindo-a, nem precisei fazer muito esforço para abri-lá. As pessoas pensam que quando a aceitação enfim chega tudo se tornará mais fácil, elas estão totalmente erradas. Ela é uma ilusão de que tudo está bem, porque quando o tempo passa nela as coisas começam a doer mais ainda, tornando-se insuportaveis.
Eu descobri que estava passando por ela ainda no começo dessa semana. Eu não andava mais, me arrastava. Não respirava, ofegava. Não lia, fugia. Não cansava, desanimava.
Eu me arrasto de um comodo ao outro no enorme apartamento esperando achar algo do qual anseio tanto. Talvez alguém que me entenda, ou alguém que me explique. Ainda não sei, não decidi. Minha vontade de falar com as pessoas é quase zero, ás vezes espero alguém vir falar comigo, perguntar como estou, mesmo sabendo que eu vou mentir, mas nada acontece e eu aceito isso. Meu desgosto é tão papavél que enoja.
Hoje fui tomar banho logo após o almoço, sempre demoro para acertar a temperatura nesse chuveiro, é a gás. Hoje demorei-me no banho mais que o habitual. Fiquei encostada à parede pensando em como as coisas haviam mudado drasticamente e como eu acabei me acomodando á isto. Então, em meio a esses pensamentos, a dor que eu sentia voltou, não que ela estivesse desaparecido, ela sempre estaria ali esperando o momento certo de aparecer, e eu pensei que choraria, mas acho que devo ter secado todas as minhas lágrimas por uma vida toda pois não saiu nada.
Assim que terminei o banho e desliguei o chuveiro a água gelada tocou meu corpo quente me fazendo arfar, como se meu pulmão estivesse se contraíndo em dor por falta de ar, e nesse momento algo cruzou a minha mente me trazendo aqui hoje. A minha dor era caracterizada por três momentos. Três temperaturas. A primeira era a quente, quando eu não acertava a água morna e ela castigava a minha pele, nessa eu sentia um misto de dor e raiva por não poder me expressar. A segunda era a morna, quando eu acerteva a temperatura da água, geralmente era quando eu descobria o foco da dor e a raiva passava, eu choro nessa temperatura. A terceira, e última, é quando eu termino o banho e a água fria encosta na minha pele me proporcionando um choque térmico agonizante, essa parte é quando minha dor está fria demais para eu me importar, mas ela permaneça em mim o dia inteiro insistindo em ser sentida, é quando eu passo a me arrastar pelo apartamento sendo o robô que fui feita pra ser.
Bom, o que me resta a fazer e sentar nesta varanda e aproveitar a chuva antes que ela acabe e o calor volte.
— Sakky.

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